Coragem para Falar, Coragem para Falhar

O sucesso de uma pessoa na vida pode normalmente ser medido pelo número de conversas desconfortáveis que está disposta a ter.

Tim Ferriss

Muitos dos grandes momentos nas nossas vidas passam por falar, por dizer algo que não sabemos como irá ser recebido, e em que a nossa reputação, ou a nossa relação pode estar em risco.

Ficar calado e não dizer nada, é mais fácil a curto prazo, mas é uma energia que nos vai corroendo e corroendo as nossas relações.

Se por um lado tenho sido uma pessoa bastante frontal e transparente na minha vida, momentos tem havido em que a falta de coragem me fez não dizer algo que precisava ser dito. E é desses momentos que me arrependo.

Quando disse algo que foi mal recebido, com maior ou menor dificuldade, as coisas resolveram-se, mas as palavras que precisavam ser ditas e não foram, ficaram como fantasmas a pairar sobre mim e sobre as pessoas a quem precisava de as dizer.

De onde vem a nossa incapacidade de falar?

Vem da nossa incapacidade de estar com o desconforto que a conversa pode causar, a nós e aos outros.

Quais as consequências de falar?

Quais as consequências de não falar?

Há momentos que é melhor ficar calado, não dizer nada, mas se o tema é importante, podemos e devemos voltar lá, mesmo que seja passado algum tempo.

Por vezes as palavras não ditas têm mais impacto que as que são ditas.

Pais, treinadores, colegas de equipa, todos já tiveram momentos em que tinha sido fundamental falar, para bem do próprio, do outro, da equipa e dos seus objectivos.

Quando não dizemos aos outros aquilo que sentimos e pensamos, não deixamos de sentir nem de pensar, o outro é que não sabe e vai continuar a agir de uma forma que muito provavelmente não faz sentido para nós. É aqui que pode começar a haver ressentimentos, menos vontade, menos disponibilidade, que o outro vai sentir, mas não vai perceber porquê.

Alimentar as pessoas com meias-verdades ou tretas para que se sintam melhor (o que quase sempre tem a ver com o facto de nos sentirmos mais confortáveis) é indelicado.

Não conseguimos ler a mente dos outros, mas achamos que sim. Os outros não leem a nossa mente, mas achamos que sim. Isto é receita para desentendimentos.

As consequências de evitar conversas difíceis, ou sair de uma discussão difícil assim que ela se torna desconfortável incluem:

  • Diminuição da confiança e do envolvimento;
  • Aumento de comportamentos problemáticos, incluindo comportamentos passivo-agressivos, falar nas costas das pessoas, comunicação generalizada nos bastidores (ou “a reunião depois da reunião”), mexericos e o “sim sujo” (quando digo sim na sua cara e depois falo nas costas); e
  • Diminuição do desempenho devido à falta de clareza e de objectivos partilhados.

Se observo algo que considero não estar certo, será importante falar sobre isso, não de qualquer maneira. Quando temos a capacidade de transmitir a nossa visão como algo neutro, sem juízos de valor, esta é sempre verdadeira. Aquilo que observamos é visto por nós, sentido por nós, logo se tiver a capacidade de referir do meu ponto de vista, a probabilidade da outra pessoa receber a informação como crítica pessoal é menor.

Nós vemos e ouvimos aquilo que somos, não apenas o que está a acontecer ou o que está a ser dito.

O nosso desenvolvimento molda a forma como vemos o mundo, e não há dois desenvolvimentos exactamente iguais, pela diversidade de experiências que cada um terá.

Consigo comunicar para além do modo como me estou a sentir?

Consigo ouvir a necessidade que está por trás daquilo que me é dito?

A comunicação é peça chave em qualquer relação, e no contexto desportivo existe um elevado número de relações, é feito por pessoas e para pessoas.

Os líderes dentro dos clubes e instituições desportivas têm uma responsabilidade acrescida de dar o exemplo de uma comunicação aberta e promotora de crescimento, mas todos têm a responsabilidade de falar sobre aquilo que é importante para si.

Ainda no outro dia o Prof. Carlos Barroca falava sobre a sua capacidade de “dizer que que a parede é branca”, sendo que o que ele transmitiu foi a mensagem de termos a coragem de dizer que a parede é branca quando é branca.

Tornamo-nos pessoas de confiança quando dizemos aquilo que é preciso dizer, não de qualquer maneira, tendo sempre presente que o nosso objectivo é que as coisas melhorem e que todos os envolvidos cresçam.

A vida encolhe ou expande-se na proporção da coragem de cada um.

Anaïs Nin

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